Há dez anos, a pessoa comum tinha uma conta. Hoje, entre a conta do salário, a conta digital aberta por curiosidade, a carteira do aplicativo de compras e a conta que veio junto com um cartão de loja, não é raro encontrar quatro ou cinco. A pergunta que chega à redação é se isso é um problema. A resposta curta: depende do motivo de cada conta existir. Este artigo propõe um método em quatro perguntas para decidir quantas manter e o que fazer com as outras.
Quando a separação ajuda
A experiência de consultoria mostra um padrão consistente: quem guarda a reserva na mesma conta em que paga o dia a dia gasta a reserva. Não por descuido, mas porque o saldo exibido no aplicativo mistura o que é da semana com o que é do imprevisto, e o cérebro lê o número inteiro como disponível. Separar fisicamente os dois valores, em contas diferentes, é a forma mais simples de proteger a reserva, e funciona com mais consistência do que qualquer planilha.
Uma segunda separação útil é entre renda da casa e dinheiro de uma atividade paralela ou de um pequeno negócio. Misturar os dois impede saber se a atividade dá lucro e complica qualquer prestação de contas no futuro. Uma conta exclusiva resolve com custo zero ou quase zero.
Nesses dois casos, a segunda conta tem um papel claro, recebe dinheiro com regularidade e é consultada com propósito. É o que chamamos de conta com função.
Quando a multiplicação atrapalha
O oposto é a conta sem função: aberta para receber um bônus de boas-vindas, para testar um aplicativo, para aproveitar um cartão sem anuidade "no primeiro ano" ou porque uma loja exigiu no caixa. Ela recebe um depósito inicial, é usada duas vezes e esquecida. O problema aparece em três formas.
- Custo residual. Mensalidade de pacote, anuidade a partir do segundo ano ou tarifa por inatividade continuam sendo cobrados, muitas vezes sobre um saldo pequeno que vai a zero e depois a negativo.
- Dispersão. Dinheiro espalhado em cinco lugares é dinheiro que não aparece na conta do orçamento. R$ 80 aqui, R$ 140 ali e R$ 300 em uma carteira digital somam mais de R$ 500 fora do radar.
- Esquecimento de pontos e saldos. Programas vinculados a contas pouco usadas expiram sem que ninguém perceba. Cada conta adicional é mais um regulamento para acompanhar.
O bônus de boas-vindas, em particular, merece uma conta de padaria. Um bônus de R$ 50 em uma conta que passa a cobrar R$ 20 de pacote a partir do quarto mês custa R$ 190 no primeiro ano. Quem abriu pela "vantagem" pagou quase quatro vezes o valor recebido.
O método em quatro perguntas
Para cada conta, carteira ou cartão com conta vinculada que você tem, responda por escrito.
- Qual é a função desta conta? Se a resposta for uma única frase clara ("receber salário e pagar o mês", "guardar a reserva de emergência", "receber o dinheiro das vendas"), ela passa. Se a resposta começar com "eu abri porque...", ela não tem função: tem histórico.
- Quanto ela custa por ano? Some pacote, anuidade, tarifas por operação e qualquer seguro embutido. O artigo 7 custos que passam despercebidos no extrato explica onde achar cada um. Uma conta com função pode custar; uma conta sem função não pode custar nada.
- Quando foi a última vez que você a consultou com propósito? Se faz mais de 60 dias, ela está fora do seu radar, e tudo que está nela também. Reserva guardada em conta que ninguém olha ainda é reserva; saldo esquecido em carteira digital é dinheiro parado por descuido.
- O que acontece com pontos, saldo e benefícios se você encerrar? Leia o regulamento antes. Pontos costumam expirar no encerramento; saldos de cashback pendentes podem ser perdidos; cartões vinculados são cancelados. Resgate e transfira tudo antes de fechar.
O que fazer com as que sobraram
Contas que passaram na primeira pergunta ficam, com o custo registrado no orçamento como fixo. As demais entram em um processo de encerramento em três passos: zerar o saldo transferindo para a conta principal; cancelar cartões e débitos automáticos vinculados, um por um, confirmando por escrito; e só então pedir o encerramento, guardando o número de protocolo. Esse último passo é essencial: uma conta "abandonada" não é uma conta encerrada, e tarifas continuam sendo lançadas.
Verifique, trinta dias depois, se algum lançamento surgiu na conta que você acreditava fechada. Em caso positivo, o protocolo é o que resolve a contestação.
Quantas contas, afinal
Na maior parte dos casos que acompanhamos, o número final fica entre duas e três: uma para o dia a dia, uma para a reserva e, quando existe atividade paralela, uma para ela. Esse arranjo cobre as funções reais sem criar regulamentos a acompanhar. Mais do que isso só se justifica com uma função específica e um custo conhecido.
O número em si importa menos do que a resposta à primeira pergunta. Uma conta com função é uma ferramenta; uma conta sem função é uma pequena despesa com nome bonito. A diferença entre as duas é o que o orçamento do mês, descrito na etapa 5 do guia, vai sentir ao longo do ano.