A pergunta que mais chega à redação sobre cashback é curta: "é dinheiro de verdade?". A resposta também é curta, sim, mas o que vem depois dela é que decide se o programa vale alguma coisa para você. Este artigo explica de onde sai esse dinheiro, por que ele demora, o que fica de fora e, principalmente, como fazer a conta antes de mudar o seu hábito de compra por causa de um percentual.
De onde sai o dinheiro que volta
Cashback é a devolução de uma parte do valor pago, em dinheiro ou em saldo na conta, depois que a compra é confirmada. Quem paga essa devolução, na maioria dos casos, é o lojista, não a instituição que emite o cartão. Funciona assim: a loja aceita pagar uma comissão para o programa em troca de ser incluída nele e atrair clientes; o programa fica com uma parte dessa comissão e repassa o restante ao consumidor. Quando o cashback vem do próprio cartão, o dinheiro sai da taxa que o lojista já paga para aceitar aquele meio de pagamento.
Isso explica duas coisas que confundem o leitor. Primeiro, por que o percentual varia tanto de loja para loja: cada lojista negocia a sua comissão. Segundo, por que categorias inteiras ficam de fora: saques, contas de consumo, parcelamento da fatura e taxas públicas não geram comissão para ninguém, então não há de onde tirar a devolução.
Por que demora de 30 a 90 dias
O saldo quase nunca aparece na hora. O programa só recebe a comissão quando a loja confirma que a venda foi concluída e que o prazo de arrependimento ou troca terminou. Em compras on-line, esse ciclo leva de 30 a 90 dias na maior parte dos regulamentos que lemos. Em aplicativos de cashback de varejo, o saldo fica "pendente" até a loja repassar o valor, o que pode demorar ainda mais em épocas de alto volume.
Se o produto for devolvido ou a compra for cancelada, a devolução é cancelada junto. Por isso, uma compra feita só para "ganhar" o cashback e devolvida depois não gera nada, e em alguns programas pode até derrubar o saldo pendente de outras compras do mesmo período.
A conta que ninguém faz no balcão
O percentual anunciado é a parte menos importante da decisão. O que importa é a diferença entre o que o programa custa e o que ele devolve no seu volume de gasto. Vamos a um exemplo com números redondos.
Suponha um cartão com anuidade de R$ 480 por ano e cashback de 1% em todas as compras. Para a devolução cobrir a anuidade, é preciso gastar R$ 48 mil por ano, ou R$ 4 mil por mês, só em compras que pontuam. Abaixo disso, o programa custa mais do que devolve. Agora um cartão sem anuidade e com 0,5% de cashback: qualquer compra gera devolução líquida, ainda que pequena. Para quem gasta R$ 1.500 por mês no cartão, o primeiro cartão dá prejuízo de R$ 300 no ano; o segundo devolve R$ 90. O cartão com percentual menor é o que compensa.
Faça a conta com os seus números: multiplique o gasto mensal que realmente passa pelo cartão (sem contas de consumo e sem parcelamentos antigos) por doze, aplique o percentual e subtraia a anuidade e qualquer mensalidade do programa. Se o resultado for negativo, não há vantagem, por mais que o nome do programa diga o contrário.
Quatro regras de regulamento que mudam o resultado
Mesmo quando a conta fecha no positivo, quatro cláusulas podem zerar o ganho. Procure por elas antes de aderir.
- Valor mínimo de resgate. Alguns programas só liberam o saldo a partir de R$ 20 ou R$ 50. Com 0,5% de devolução, isso significa R$ 4 mil a R$ 10 mil em compras antes de ver o primeiro real.
- Teto mensal. "Até 5% de cashback" costuma vir com um limite, por exemplo R$ 30 por mês. Acima disso, a devolução cai para a faixa básica ou para zero.
- Prazo de validade do saldo. Saldo que não é resgatado em 90 ou 180 dias expira em alguns regulamentos. Anote a data e resgate antes.
- Exclusões por categoria. Supermercado e combustível, justamente as maiores despesas variáveis das famílias, ficam de fora em vários programas ou têm percentual reduzido.
O risco silencioso: mudar o hábito
O maior custo do cashback não está no regulamento. Está na mudança de comportamento que ele induz. Comprar na loja parceira em vez da mais barata, antecipar uma compra para aproveitar uma campanha ou gastar mais para atingir um teto são decisões que custam mais do que a devolução. A regra que usamos na consultoria é simples: a devolução só conta como vantagem se a compra seria feita de qualquer maneira, na mesma loja, pelo mesmo preço. Qualquer desvio disso precisa ser pago pela própria devolução, e quase nunca é.
Um teste prático: antes de escolher a loja parceira, compare o preço final com o de uma loja fora do programa. Se a diferença de preço for maior do que o cashback, o programa está custando dinheiro naquela compra.
Quando compensa, afinal
O cashback compensa quando quatro condições se somam: o programa não tem custo fixo (ou o custo é menor que a devolução no seu volume real), o saldo cai na mesma conta que você já usa, não há mínimo de resgate relevante e você não muda onde nem quanto compra por causa dele. Nessas condições, ele é uma pequena redução de custo, algo entre 0,5% e 1% das despesas que passam pelo cartão. É bom, é dinheiro de verdade, mas não é motivo para reorganizar a vida financeira.
Se o seu programa atual não passa nesse filtro, a decisão não é trocar por outro imediatamente, e sim recolocar o cashback no lugar certo do orçamento: uma linha pequena, positiva ou negativa, na tabela da etapa 4 do guia do orçamento. Com o número na frente, a escolha deixa de ser emocional.